Começa julgamento do STF sobre direitos das pessoas trans

novembro 20, 2015

Começou ontem, 19.11.2015, o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) do Recurso Extraordinário (RE) 845.779/SC, que discute o direito de pessoas transexuais usarem um banheiro de acordo com a sua identidade de gênero – no caso, uma mulher transexual foi impedida de usar o banheiro feminino, em razão disso não conseguiu segurar suas necessidades fisiológicas e processou o shopping cujo segurança a expulsou do banheiro por danos morais.

Tive a enorme felicidade de participar desse julgamento, em sustentação oral, representando a ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, agradecendo a autorização do advogado dela no caso, Dr. Rafael Kirchhoff, por substabelecimento, para eu atuar no caso.

Tivemos maravilhosos votos do Relator, Ministro Roberto Barroso, e do Min. Fachin, em prol do reconhecimento da dignidade humana das pessoas trans (travestis, mulheres transexuais e homens trans), após as sustentações orais da advogada da recorrente, a maravilhosa Dra. Isabela Medeiros, que mostra perfeitamente (como divers@s outr@s militantes já fizeram) que heterossexuais cisgêneros podem perfeitamente ter alteridade/empatia e respeitar as identidades LGBT, a minha (sustentação oral) e a da Dra. Juliana Cesario Alvim, que representou a Clínica de Direitos Fundamentais da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro). Bem como após o igualmente belíssimo parecer da Procuradoria-Geral da República.

Contudo, depois tivemos falas bem problemáticas dos Ministros Marco Aurélio, Fux e Lewandowski. As quais minha fala, as das demais advogadas que também falaram na Tribuna e principalmente o belíssimo voto do Ministro Barroso já tinham refutado, especialmente sobre o “desconforto” de mulheres cis em ter mulheres trans no banheiro com elas ser preconceito e mero dissabor que não é critério válido para diferenciações jurídicas pela vedação constitucional a preconceitos de quaisquer espécies (art. 3º, IV)… O Min. Barroso bem disse nesse momento que o incômodo tal é uma intervenção “leve” na privacidade dessas mulheres (se é que se considera isso uma intervenção em suas privacidades) ao passo que impedir mulheres transexuais de usar o banheiro feminino é uma intervenção “forte” em seu direito ao respeito à sua dignidade, indagando como essas mulheres se sentiriam vendo um homem trans, aparência totalmente masculina, no banheiro feminino, consequência lógica da problemática indagação em questão… e que coisa inexplicável querer saber se a mulher transexual já tinha feito a cirurgia ou se ela “aparentava” ser uma “mulher [cisgênera]”… Então lésbicas masculinizadas e gays afeminados, que para muit@s “não parecem” (sic) pessoas de seu gênero, como ficariam?! Eu tenho uma cliente transexual operada que teve problema no banheiro feminino da Associação dos Advogados de São Paulo (AASP) este ano ou ano passado, quando nos encontramos lá para uma reunião, a mostrar o quão descabidas são tais indagações… Enfim, tais falas constam na notícia do G1 sobre o tema, que inclusive citou trecho de minha fala da Tribuna: http://g1.globo.com/politica/noticia/2015/11/relator-no-stf-vota-favor-do-uso-de-banheiro-feminino-por-transexual.html

Estou exausto, mas feliz por participar deste importantíssimo julgamento em favor de nossas irmãs travestis e mulheres transexuais e nossos irmãos homens trans. Exausto porque soubemos do dia do julgamento só na segunda-feira e tive que me preparar na madrugada de segunda para terça. Mas essa é a vida de militantes de direitos humanos (!), então faz parte do pacote (!?!).

Segue o teor da sustentação oral, que protocolarei como memorial da ABGLT (e do GADvS!) no processo e que entreguei impressa aos Ministros e às Ministras presentes (ausentes, justificadamente, os Ministros Gilmar Mendes, Celso de Mello e Dias Toffoli). Trechos entre colchetes não falei pela falta de tempo, 15 minutos é muito pouco tempo para temas tão complexos! Mas constaram do memorial (que, na verdade, ampliei um pouco “aqui” sobre o que entreguei escrito porque falei de improviso, na Tribuna do Supremo, detalhes que não estavam no documento impresso). Pelo mesmo motivo de eu não ter feito ainda pelo GADvS uma manifestação de amicus curiae a ABGLT não tinha apresentado ainda manifestação escrita: não achávamos que o processo seria julgado tão “rapidamente” (!), acredite quem não está acostumado, aproximadamente um ano de espera para julgamento de processos de repercussão geral que chegam ao STF é algo bem “rápido” para fins da normalidade da vagarosidade do Judiciário (11 Ministros para dezenas de milhares de processos, algo compreensível, portanto).

Continue lendo »

Anúncios

Vitória! TJSP permite mudança de nome de transexual sem prévia cirurgia

julho 29, 2015

Vitória! Em julgamento realizado hoje, 29.07.2015, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) deu provimento a recurso que interpus em favor de um cliente (pro bono) homem trans e reformou a sentença que impediu a sua mudança de nome pela ausência de cirurgia de transgenitalização! O voto do Relator, Desembargador Luiz Ambra, foi excelente, ressaltando a crueldade que é impor a realização da cirurgia para respeitar o direito à identidade pessoal da pessoa transexual (mulher transexual/homem trans). O Revisor, Desembargador Grava Brazil, que tinha posicionamento contrário de pelo menos um julgado anterior (que citei e refutei na minha sustentação oral) disse que mantinha a mesma opinião, para preservar direitos de terceiros que venham a se relacionar com a pessoa transexual, mas que se curvava à jurisprudência contemporânea e, com essa ressalva, acompanhava o relator (consignou posição divergente, mas se curvou à maioria, algo comum nos Tribunais). O Terceiro Juiz, Desembargador Salles Rossi, citado pelo voto do Relator, também o acompanhou. Minha sustentação oral foi elogiada por todos, inclusive por Desembargador que não fez parte do julgamento (oriundo do Quinto Constitucional – advogado indicado pela OAB para o cargo de Desembargador), o que me deixa muito feliz e lisonjeado. Fico ainda mais feliz porque ainda é aparentemente majoritária a jurisprudência do TJSP contra a mudança de nome (e sexo) sem cirurgia, embora julgados mais recentes (que citei na apelação) tenham permitido a mudança. Creio que esteja se consolidando a viragem da jurisprudência a favor da igual dignidade de transexuais relativamente a pessoas cisgêneras no TJSP, o que é algo a se comemorar (salvo melhor juízo, não há jurisprudência consolidada sobre direito idêntico de travestis, lamentavelmente). Ou seja, não é inédito termos esse tipo de decisão, mas ela parece indicar a consolidação da tese (provavelmente ainda em um viés patologizante e cissexista, saberei exatamente apenas quando sair a íntegra do voto do relator, que ele explicou brevemente no dia, mas, de qualquer forma, em termos práticos, importantes, não obstante eu evidentemente saiba da importância simbólica de uma fundamentação despatologizante e não-cissexista, logo, uma fundamentação melhor à luz dos direitos humanos; mas, reitero, foi importante a sensibilidade dos Desembargadores que participaram deste julgamento). Mais feliz ainda (eu estou) porque o Ministério Público de 2ª Instância tinha ofertado parecer favorável à ação, donde a princípio não haverá recurso a Brasília contra o acórdão! (“a princípio” porque, absurdamente, a jurisprudência admite que outro promotor que assuma o caso possa recorrer mesmo com o/a promotor/a anterior tendo ofertado parecer favorável… mas creio que seja improvável que isso ocorra). Logo, feliz pelo martírio de meu cliente quanto a seu nome estar chegando ao fim!

PS: entramos com ação pedindo mudança apenas do nome porque quando a propusemos, meu cliente ainda não tinha iniciado o acompanhamento multidisciplinar exigido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para a realização da cirurgia, além de ser uma já tradicional estratégia primeiro pedir para mudar o nome e depois para mudar o sexo. Alterado o nome na certidão de nascimento, entraremos com o pedido de mudança de sexo na Justiça.

PS2: disponibilizo agora, no meu blog, o memorial que protocolei no processo e resume as principais teses da ação (e, embora fale apenas de “nome”, as mesmas teses constitucionais servem para a mudança do “sexo jurídico” da pessoa (sexo jurídico é aquele que consta dos nossos documentos). Fiz brevíssimos e pontuais acréscimos nele relativos a temas constantes da sustentação oral, mas na essência é o que consta dos autos (quase literalmente, portanto) (para quem não sabe por não ser profissional do Direito ou, sendo, não atuar em contencioso, “memorial” é a petição que resume as teses do recurso de apelação, normalmente entregue informalmente aos/às julgadores/as, mas que por vezes protocolo quando considero importante):

Continue lendo »


IV Encontro Estadual da Diversidade Sexual da OABSP

julho 1, 2015

Em tempo, segue a “transcrição” que fiz das falas do IV Encontro Estadual da Diversidade Sexual da OABSP, realizado no dia 23.05.15, no Teatro Gazeta (São Paulo/SP) (“transcrição” entre aspas porque não sou taquígrafo, embora digite rapidamente e, também aqui, tenha sido possível acompanhar a velocidade das falas; embora algo sempre se perca, a essência das falas certamente está garantida).


IV Encontro Estadual da Diversidade Sexual da OABSP

DIVERSIDADE SEXUAL. DIREITOS HUMANOS E LIBERDADES CONSTITUCIONAIS.

Falas Introdutórias.

Abertura pela Dra. Ivete Senise, presidenta em exercício da OABSP, em razão do afastamento do Dr. Marcos da Costa (Presidente), por motivo de saúde. Saúda a Comissão de Diversidade Sexual e Combate à Homofobia da OABSP pelo 4º encontro e agradece a presença de tod@s. Essa temática se insere no contexto da temática da comissão e resultará no lançamento de uma campanha para fortificar melhor o trabalho da mesma, que se insere nas comemorações que foram iniciadas no dia 17 de maio, Dia Internacional de Combate à Homofobia, que nos permitiu inserir no contexto dos temas tratados aqui algo relativo aos aspectos internacionais, para que se veja o âmbito da questão e a importância que tem no mundo moderno. Todas as questões tratadas pelos palestrantes (direitos humanos, liberdade de expressão, criminalização etc) ainda se somam a um aspecto bastante moderno que também ouviremos aqui, referente às mudanças no Direito das Famílias que estão sendo promovidas para acompanhar a modernidade da questão e da efetivação de garantias jurídicas para questões que estamos enfrentando: a multiparentalidade, que demonstra a acuidade da escolha dos temas e palestrantes pela Presidenta Adriana Galvão. Juízes e autoridades que lidam com o tema e que trarão todas as informações necessárias para compreender os temas. Parabéns pela campanha, Adriana, que será encampada por toda a OAB. Continue lendo »


Suprema Corte dos EUA reconhece direito ao Casamento Civil Homoafetivo

julho 1, 2015

Alguns comentários sobre decisão histórica da Suprema Corte dos EUA, que encerrou a evolução de sua jurisprudência em prol da plena cidadania homossexual. De uma decisão nefasta que disse “tudo bem” para a criminalização do sexo homoafetivo (união consensual entre adultos, maiores e capazes) em 1986 (caso Bowers vs. Hadwick), passando por uma decisão de 1996 que disse que não há um legítimo interesse estatal na proibição de quaisquer ações afirmativas em favor da população LGBT (caso Romer vs. Evans), por outra, em 2003, que revogou aquela primeira e disse (a obviedade segundo a qual) é inconstitucional criminalizar o sexo consensual entre maiores e capazes do mesmo sexo (caso Lawrence vs. Texas) e por outra que, em 2013, disse que é inconstitucional discriminar casamentos homoafetivos relativamente a heteroafetivos, invalidando parte de uma lei que dizia que os Estados que não reconheciam aquele não eram obrigados a atribuir-lhes efeitos jurídicos em seus territórios e que negava benefícios federais a eles (caso Winsor vs. United States), para culminar com esta, que reconheceu o direito ao casamento civil igualitário em todo o país (caso Obergefell vs. Hodges).

A capa do The New York Times foi muito feliz ao destacar o fundamento central da decisão: “igual dignidade”. Direito dos casais homoafetivos a uma igual dignidade relativamente àquela atribuída pelo Estado a casais heteroafetivos (e eu já fui criticado por usar essa expressão, nada como um dia após o outro…). Reconhecer uma “união civil” paralela ao casamento civil implica em reconhecer “menor dignidade” àqueles/as a quem se nega acesso ao casamento civil, por exemplo (pois nega-se o acesso por não se considerá-l@s merecedores/as ou “dign@s [o bastante]” dele). O casamento civil confere uma enormidade de direitos e é a união conjugal à qual o Estado e a sociedade conferem maior dignidade, donde é discriminatório não permiti-lo a casais do mesmo sexo (mesmo gênero). Independente do fato de o Estado não dever ser “casamentocêntrico” e não dever conferir maior dignidade ao casamento civil relativamente a outras uniões conjugais (e dever, inclusive, intervir menos na união matrimonializada e deixá-la à livre decisão de seus integrantes, atuando apenas para impedir a opressão de uns/mas por outros/as), fato é que se a lei reconhece um regime jurídico conjugal a casais heteroafetivos, deve reconhecê-lo também a casais homoafetivos (ainda mais quando a lei assume essa postura “casamentocêntrica”, mas isso é outra discussão). Aí se casa quem quiser, se quiser. É totalitário quem é contra o casamento não querer que outros se casem. Que se lute para mudar esse regime jurídico e esse “casamentocentrismo” do Direito, mas enquanto ele existir e especialmente enquanto for aquele ao qual o Estado garante mais direitos, deve ser aberto a tod@s que queiram nele ingressar. Continue lendo »


Carta de Brasília – Movimento LGBT

julho 1, 2015

Carta de Brasília

Reunidos e reunidas de 22 a 24 de junho de 2015, nós, ativistas de direitos humanos, gestores e gestoras públicos (as), pesquisadores (as), militantes de diversos partidos políticos, comprometidos (as) com a luta pelos direitos da população lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), discutimos a situação nacional, a ofensiva conservadora e as alternativas para avançar na criminalização das discriminações e violências em razão da orientação sexual e identidade de gênero. A síntese dos nossos debates é a que segue:

1. Em 1988, foi promulgada a Constituição Federal brasileira, que pôs fim ao período de ditadura militar e abriu um ciclo de garantia dos direitos individuais e coletivos, proibição de todas as formas de discriminação e construção de políticas públicas;

2. Desde então, vimos a criação e consolidação de leis e políticas de proteção às mulheres, crianças e adolescentes, população negra, pessoas com deficiência, idosos (as), indígenas, juventude. Nesta trajetória de acúmulos e avanços, foi fundamental a garantia dos princípios da laicidade estatal, da pluralidade política, da liberdade religiosa e da democracia participativa;

3. Durantes os governos Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, em diálogo com o movimento social, foi possível a construção – mesmo que de maneira ainda insuficiente e incompleta – de uma política nacional de proteção e promoção dos direitos humanos;

4. O movimento social que luta pelos direitos LGBT obteve muitas vitórias nestas quase três décadas. No âmbito do Poder Executivo, ocorreram conferências nacionais, foram instituídos políticas e planos LGBT em diversas instâncias e governos. O Poder Judiciário tem afirmado sistematicamente os direitos civis LGBT, a exemplo do Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a união estável entre pessoas do mesmo sexo, e do Conselho Nacional de Justiça, que assegurou o casamento civil;

5. Contudo, nos últimos anos, temos assistido ao crescimento de forças reacionárias que se opõem às políticas afirmativas e de promoção dos direitos das mulheres, LGBT, negros (as), dentre outros;

6. O Brasil atravessa um verdadeiro “tsunami reacionário”: um momento grave e delicado no que diz respeito ao projeto de nação livre, justa e solidária, que promova o bem de todos (as), sem preconceitos de qualquer natureza, na qual o valor civilizatório dos direitos humanos se constitui o paradigma norteador. Sem dúvida, o período de maior ascensão das forças obscurantistas, desde as lutas em favor da redemocratização;

7. O fundamentalismo religioso tem aumentado sua influência na esfera dos Poderes Legislativo e Executivo. Com um discurso muitas vezes agressivo, parlamentos são transformados em púlpitos religiosos. Programas em concessões públicas de rádio e TV são utilizados como instrumentos de propagação de discursos de intolerância e ódio contra LGBT e praticantes de religiões de matriz africana, principalmente;

8. Tais segmentos ignoram que o Estado é laico, não devendo este estabelecer quaisquer formas de dependência ou aliança com nenhum culto religioso ou igrejas. A liberdade religiosa só se efetiva, de fato, com o pleno respeito à laicidade estatal;

9. Da atual legislatura da Câmara dos Deputados, emergem o protagonismo e iniciativa política de uma agenda globalmente reacionária e regressiva;

10. Se o objetivo anterior de parlamentares fundamentalistas era barrar iniciativas favoráveis aos direitos sexuais e reprodutivos e às políticas pró-LGBT, agora sua agenda é formalmente regressiva com o objetivo de retirar conquistas, por meio de proposições de projetos, tais como: “Estatuto da Família”, que não reconhece a diversidade das famílias brasileiras; “Dia do Orgulho Hétero”; “Cura Gay” e concessão do direito para que associações religiosas possam propor ações de inconstitucionalidade;

11. Nesse momento, portanto, a prioridade de todos (as) democratas e ativistas pelos direitos humanos deve ser barrar a ofensiva que busca retirar direitos e atenta contra os fundamentos constitucionais;

12. Manifestamos nossa disposição em ajudar a construir uma Frente ampla com movimentos sociais, feministas, jovens, intelectuais, sindicalistas, militância de diversos partidos e setores religiosos progressistas que se disponham a articular ações de resistência à agenda reacionária e afirmação dos valores democráticos, contra a intolerância, pela laicidade do Estado, pelas políticas afirmativas e pela consolidação das políticas sociais;

13. De acordo com o Relatório da Associação Internacional LGBTI – ILGA (“Homofobia Estatal”), 34 Estados membros da ONU criminalizam a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, seja como tipo penal específico, seja como circunstância agravante de outros tipos penais: no continente europeu, são 24 países; na América Latina, 7 países. A mobilização decorrente de crimes com grande repercussão permitiu a aprovação da lei em vários desses países. De igual modo, ONU e OEA possuem resoluções conclamando seus Estados membros a punirem tais discriminações e violências;

14. Nesse sentido, conclamamos o Congresso Nacional a quitar a dívida histórica que tem com a população LGBT e aprovar uma lei que torne crime o ódio, o preconceito, a violência, discriminação e a intolerância contra essa população. Na mesma direção, esperamos que a presidenta Dilma reafirme seu compromisso de campanha e engaje o Governo Federal na aprovação deste marco normativo.

Brasília, 24 de junho de 2015.


[OBS: a carta foi lida por Carlos Magno, presidente da ABGLT, na Audiência Pública sobre as Violências e Discriminações motivadas por Orientação Sexual e por Identidade de Gênero, realizada no Senado Federal, no dia 24.06.15, convocada pela Senadora Marta Suplicy].


Audiência com o Procurador-Geral da Justiça Desportiva sobre denúncias de homotransfobia no futebol

abril 10, 2015

Em postagens anteriores deste blog relatei denúncias que fiz em nome do GADvS – Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual (e, nas últimas, também da ABGLT) perante a Justiça Desportiva ante os homofóbicos gritos de “bicha” (e afins) nos estádios. Em 2014, o Tribunal de Justiça Desportiva de São Paulo (TJD/SP) e o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) rejeitaram tais denúncias, mas outras três, também relativas ao Campeonato Brasileiro de 2014, pendiam de julgamento. Três dias atrás (uma terça-feira à noite), recebi a decisão delas, por e-mail, que me indignou por ter simplesmente “copiado e colado” a mesmíssima decisão anterior, o que até seria aceitável se eu tivesse só copiado e colado as denúncias anteriores, mas não foi o que fiz, já que eu expliquei dita decisão anterior, a critiquei, infirmando seus pressupostos, e pedi sua superação (seu “overruling”), donde ser absurdo e desrespeitoso simplesmente repeti-la. Como o Procurador-Geral do STJD só está no Rio às quintas-feiras, segundo fui informado por sua Secretaria, então vim pessoalmente conversar com ele, quase “de um dia para outro”. Esse relato visa explicar detalhadamente o teor dessa conversa (adianto que fui muito bem recebido, conversaram bastante comigo e pelo menos verbalmente me deram uma fundamentação de rejeição de meus argumentos, com a qual não concordo, e prometeram responder meus “recursos” com uma fundamentação adequada). Vejamos o teor dessa conversa (quem me conhece sabe que, além de ser contra a twitterização dos debates, sou bem analítico nas explicações quando acho necessário; há quatro páginas de Word no relato abaixo, não havia como ser mais curto pela intenção de explicar exatamente o que aconteceu). Continue lendo »


Criminalização da Homofobia e da Transfobia – Carta Aberta ao Congresso Nacional e à Presidenta da República

dezembro 8, 2014

Carta Aberta às Deputadas/Deputados Federais, às Senadoras/Senadores e à Presidenta da República
(enviada por e-mails institucionais às/aos primeiras/os e formulário eletrônico à segunda)

Criminalização da Homofobia e da Transfobia Sem Hierarquização de Opressões
Por Paulo Roberto Iotti Vecchiatti

Excelentíssimas Deputadas/Senadoras, Excelentíssimos Deputados/Senadores e Excelentíssima Presidenta.

A audiência pública de 03.12.2014 realizada na Câmara dos Deputados tratou de tema extremamente importante e urgente. A discriminação por orientação sexual e por identidade de gênero, ou seja, a discriminação contra pessoas LGBT é lamentavelmente uma realidade que assola nossa sociedade. Vivemos atualmente em uma verdadeira banalidade do mal homofóbico e transfóbico, na medida em que muitas pessoas (“normais”, não “monstros”) se vêm detentoras de um pseudo “direito” de ofender, discriminar, agredir e até mesmo matar pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) por sua mera orientação sexual ou identidade de gênero não heterossexual cisgênera, ou seja, todo aquele que não ame pessoas do sexo oposto e que não se identifique com o gênero socialmente atribuído ao seu sexo biológico. Os dados recolhidos pelo “Disque 100 LGBT”, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, corroboram isso, visto que ratificaram as célebres denúncias do Grupo Gay da Bahia – GGB, pelo qual a cada dia uma pessoa LGBT é morta no Brasil por homofobia ou transfobia (ao passado que os dados do “Disque 100 LGBT” mostram diversas outras formas de intolerância contra referida população). Três casos paradigmáticos bem expressam isso. A famosa “lampadada” que um jovem gay recebeu, na Avenida Paulista, em São Paulo, por pura homofobia de seu agressor; o caso de um pai e um filho que foram espancados por estarem abraçados, por terem sido confundidos com um casal homoafetivo (o pai perdeu parte da orelha), em 2011; e o caso de dois irmãos gêmeos, também espancados, também por estarem abraçados e também por terem sido confundidos com um casal homoafetivo (um deles morreu em razão das agressões), em 2012. Esses casos mostram bem a citada banalidade do mal homofóbico e transfóbico supra denunciada, sendo que os dois últimos mostram heterossexuais sendo vítima de homofobia por estarem abraçados, como se dois homens não pudessem exprimir qualquer afeto, mesmo fraterno, entre si sem serem considerados “viados” (SIC) e, assim, intoleráveis… sem falar na recente agressão a um casal gay no metrô de São Paulo, já no final de 2014, apenas por se comportarem como namorados, da mesma forma que se aceita ou ao menos tolera entre casais heteroafetivos…

Não se quer nenhum “privilégio”, quer-se igual proteção penal. A atual Lei de Racismo (Lei 7716/89) protege negros(as)/brancos(as), religiosos(as), grupos étnicos e estrangeiros-as/migrantes regionais ao criminalizar a discriminação por cor, etnia, procedência nacional e religião. O que queremos é que essa proteção se estenda a pessoas LGBT (e heterossexuais cisgêneros), pela inclusão das expressões “orientação sexual” e “identidade de gênero” na Lei de Racismo, nossa Lei Geral Antidiscriminatória, como bem diz o juiz federal Roger Raupp Rios, maior autoridade brasileira no tema do Direito Antidiscriminatório.

Continue lendo »