Se eu tivesse participado do BBB10. A Questão Marcelo ‘Dourado’. Críticas à Rede Globo. Carta-aberta à Rede Globo e ao Povo Brasileiro.

Para desgosto de alguns amigos e familiares, sempre gostei do Big Brother Brasil (BBB). Creio se tratar de uma oportunidade de vermos as reações mais genuínas de pessoas concretas (sem pretensão de generalizar comportamentos) quando submetidas a situações de stress mental. Apesar de nunca ter participado e não ter interesse em participar do BBB, posso imaginar o stress de ficar numa casa sem muitos livros, sem relógios, sem televisão, sem computador e sem internet, dentro de um espaço relativamente pequeno considerando que o finalista ficará lá por aproximadamente três meses, com pelo menos algumas pessoas com as quais você não suportaria conviver fora da casa. Logo, não parece ser um stress baixo, ao menos para quem fica naquela casa por mais de uma semana.

O BBB10 foi um programa aparentemente pensado para mostrar a diversidade humana em termos de sexualidade, na medida em que foram escalados três homossexuais assumidos para dele participar: um gay, uma lésbica e um gay travesti. Quanto a isso, cabe aplaudir a iniciativa da Rede Globo, por ajudar a mostrar um pouco do modo de ser de algumas pessoas ditas ‘diferentes’, embora, também aqui, não se possa generalizar a todos os homossexuais o comportamento dos homossexuais que participaram do BBB10 – da mesma forma que não se generaliza a todos os heterossexuais o comportamento dos heterossexuais que participaram do BBB10.

Contudo, o BBB10 acabou tomando um rumo inesperado com a aparição do Sr. Marcelo ‘Dourado’ e seus comentários altamente preconceituosos e agressivos em diversos momentos do programa. Os comentários que causaram maior choque e ganharam maior notoriedade foram os dois primeiros dos apresentados abaixo, embora os demais também mereçam repulsa:

a) ‘Dourado’ afirmou, numa conversa sobre o vírus da AIDS (HIV), que homens heterossexuais não seriam passíveis de contaminação pelo mesmo, mas somente homens homo ou bissexuais e mulheres, no sentido de que este seria um vírus transmissível pelo sexo homossexual e no sexo entre um homem bissexual e uma mulher, mas que um homem não seria contaminado pelo vírus da AIDS se mantivesse relação sexual desprotegida (sem preservativo) com uma mulher contaminada pelo mesmo;

b) ‘Dourado’, após discussão com a participante Angélica (Morango) afirmou que, se estivesse fora da casa e ouvisse o que ouviu dela, teria quebrado seus dedos e que ela merecia ser deixada inconsciente em um hospital, por conta desta discussão… (tentando, sem êxito a meu ver, amenizar dizendo que faria isso “se ela não fosse mulher”);

c) ‘Dourado’ disse de forma grosseira que perdeu a fome e, por isso, saiu da mesa após Serginho comentar algo sobre casas noturnas voltadas ao público LGBT (as ‘baladas GLS’);

d) ‘Dourado’ disse para Dicésar agir como homem ‘apesar de ser viado’ (sic);

e) ‘Dourado’ disse, na primeira festa do BBB10 (logo após entrar), quando começou a tocar a música-célebre de Gloria Gaynor (I Will Survive), que esse era ‘o hino dos TROÇOS’ (sic); 

f) por fim, comentário menos notório ocorreu logo no início do programa, quando ‘Dourado’ usou as expressões ‘orgulho heterossexual’ e ‘resistência heterossexual’ em um diálogo de Pedro Bial acerca dos participantes homossexuais da casa.

Estes são os fatos que pretendo comentar, por terem relevância para a militância por direitos e respeito às minorias sexuais (aqui entendidas como as pessoas não-heterossexuais e que lutam pelo reconhecimento de seus direitos civis inerentes à sua cidadania). Se eu estivesse na casa, teria ficado chocado e teria feito os seguintes comentários:

a) Sobre a esdrúxula afirmação de que homens heterossexuais não se contaminariam pelo vírus do HIV em atos sexuais com mulheres, após destacar o absurdo disso por afrontar todo o conhecimento médico-científico sobre o tema (segundo o qual qualquer ato sexual sem preservativo, com homens ou mulheres, é apto a transmitir o vírus do HIV), eu diria simplesmente o seguinte: “Então façamos assim ‘Dourado’: vá manter um ato sexual sem preservativo com uma mulher contaminada pelo vírus do HIV e depois me conte o resultado de seu teste, se ele foi positivo ou negativo…”. Tamanha a ignorância do comentário do participante, não haveria outra resposta a dar ao mesmo senão algo do gênero;

b)  Sobre a ameaça de agredir uma mulher pelo simples fato de com ela discutir, diria: “Mas quanta ‘macheza’ de sua parte, não é Sr. Marcelo ‘Dourado’?! Ameaçar bater em uma mulher pelo simples fato de com ela discutir??!? Isso só mostra a sua incapacidade de se relacionar com pessoas que discordam de suas posturas, que discutem com você… só mostra sua incapacidade de resolver de forma não-agressiva suas discordâncias…”;

c) Sobre ter se levantado da mesa pela mera menção a casas noturnas voltadas ao público LGBT, diria: “Mas qual o problema de apenas se comentar o que acontece nestas casas noturnas se não se está falando em nenhum momento de intimidades afetivas de quem quer que seja??? Aliás, fala-se aqui e em todo lugar sobre namoros e afetividades entre heterossexuais a todo momento, então por qual motivo não se poderia falar dos mesmos assuntos relativamente a homossexuais??? Implica em dois pesos e duas medidas aceitar que se fale de um sem falar do outro, ou então preconceito por não se aceitar que se fala de namoros e afetividades entre homossexuais quando se aceita (como você aceita) que se fale disso entre heterossexuais”;

d) Sobre ter mandado Dicésar agir como homem ‘apesar de ser viado’ (sic), diria: “Ora, desde quando ser gay seria algo impeditivo à pessoa agir como homem??? Homens gays são tão ‘homens’ como homens héteros, porque a palavra ‘homem’ tem a ver com a biologia masculina e não com orientação sexual… É errado contrapor ‘gays’ a ‘homens’, pois homens gays são ‘homens’, como é óbvio… Essa contraposição é puramente preconceituosa…”;

e) Sobre ter falado da música de Glória Gaynor como ‘hino dos troços’ (sic), diria: “Como assim ‘troços’??? Você acha gays menos dignos que héteros??? Você acha gays inferiores a héteros??? Por que diabos você usa um termo tão depreciativo e, portanto, preconceituoso para se referir a gays???”;

f.1) Sobre a expressão “orgulho heterossexual”, teria dito que “Falar em ‘orgulho heterossexual’ é tão descabido quanto falar em ‘orgulho branco’, pois não se trata de um orgulho de pura e simplesmente amar pessoas do mesmo sexo (ou de ser negro), tratando-se de estratégia discursiva de combate ao preconceito que menospreza pessoas pelo simples fato de não serem heterossexuais (ou de não serem brancas), donde a estratégia consiste em dizer que não há nada de errado em ser homo/bissexual (ou negro) e que, ao contrário, a pessoa em questão tem orgulho de ser como é (homo/bissexual ou negra) justamente porque não há absolutamente nada de errado com esta característica sua. Por outro lado, quando heterossexuais falam em ‘orgulho hétero’, eles simplesmente falam em orgulho de amarem pessoas de sexos diversos, sem nenhum intuito a combate de preconceitos, donde se percebe o absoluto de descabimento do uso desta expressão por heterossexuais ou brancos”;

f.2) Sobre a expressão “resistência heterossexual”, teria dito que “Esta expressão demonstra profunda ignorância acerca da sexualidade humana, pois denota que pessoas poderiam acabar sendo ‘convertidas’ em homossexuais, o que é completamente descabido na medida em que orientação sexual não é algo que depende de escolha das pessoas nem é algo determinável pela ‘influência’ de quem quer que seja (do contrário, não haveria como crianças criadas por casais heteroafetivos se descobrirem homossexuais…). Logo, afigura-se mesmo ofensivo alguém falar em ‘resistência heterossexual’…”.

Ademais, eu também teria corrigido o apresentador Pedro Bial (ao vivo mesmo) quando o mesmo inacreditavelmente desmereceu a sigla LGBT (atinente a Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) por ela não conter o “S” da sigla GLS (atinente a Gays, Lésbicas e Simpatizantes). A participante Elenita imediatamente respondeu, afirmando que a sigla LGBT refere-se a direitos civis e que toda pessoa tem a obrigação de respeitar o próximo [no que eu acrescentaria: independente da característica diferenciada da pessoa]. Perfeitos os comentários de Elenita, mas Bial voltou à questão em outro programa, em clara resposta a Elenita, afirmando que ninguém poderia ser obrigado a simpatizar com ninguém, além de ter insistido nesta sua antipatia à sigla LGBT. Quanto ao tema, além da evidência de que Elenita falou em obrigação de respeitar e não de simpatizar (o respeito-tolerância é pressuposto do convívio em sociedade), eu teria afirmado o seguinte, logo após a fala de Elenita: “Ora Bial, com todo o respeito, qualquer pessoa que procure pesquisar e/ou analisar minimamente estas siglas percebe que GLS é uma sigla comercial, destinada a estabelecimentos comerciais voltados ao público não-heterossexual – e, nestes locais, voltados especificamente a não-heterossexuais, heterossexuais que neles compareçam têm, efetivamente, a obrigação de respeitar e simpatizar com os não-heterossexuais presentes – do contrário, o que diabos estão fazendo lá??? Assim, faz sentido a presença do ‘S’ nesta sigla. Por sua vez, a sigla LGBT, como bem disse a Elenita, é uma sigla que se volta a luta por direitos civis, no sentido da luta das minorias sexuais pelo reconhecimento dos direitos civis que lhes são arbitrariamente negados pela sociedade em geral. Logo, faz todo o sentido o ‘S’ não fazer parte da sigla LGBT”.

Teria, por fim, corrigido os próprios participantes homossexuais quando usavam reiteradamente a expressão opção sexual, dizendo “Ora, ninguém escolhe ser homo, hétero ou bissexual, as pessoas simplesmente se descobrem de uma forma ou de outra, donde aquela expressão está incorreta, fala-se hoje em ‘orientação sexual’, que não significa que sexualidade seja algo passível de ensinamento, orientação pedagógica, mas que o desejo está apontado (como uma seta) no sentido de pessoas do mesmo sexo, de sexo diverso ou de ambos os sexos”. Inclusive corrigiria o termo “homossexualismo”, porque o sufixo “ismo”, ligado a condutas humanas, significa “doença”, sendo correto o termo homossexualidade porque o sufixo “dade” significa “modo de ser” (e, reitere-se, trata-se de sufixo ligado a condutas humanas: “ismo” pode também significar conjunto de princípios e/ou crenças, como em “capitalismo”, “cristianismo” etc, não sendo correta a equiparação dos sufixos nas duas situações). Seria provavelmente acusado de “ditador do politicamente correto”, mas fato é que termos tecnicamente equivocados não podem continuar a ser utilizados, sob pena de sua aptidão a difundirem conceitos incorretos sobre o tema. Quem se recusa a usar o termo correto deixa claro que não se importa com a difusão do preconceito inerente a tais termos/conceitos equivocados.

Diversas outras questões secundárias ensejariam comentários críticos de minha parte, mas esta manifestação se dirige apenas a questões que afrontam conhecimentos básicos de sexualidade humana (comentários de Marcelo ‘Dourado’) e de luta por direitos civis por parte das minorias sexuais (comentários de Pedro Bial). Como militante dos direitos da comunidade LGBT (embora não faça parte da chamada ‘militância oficial’, de ONGs vinculadas aos Partidos de Esquerda), senti-me na obrigação de fazer estes esclarecimentos (que tenho feito informalmente desde que aquelas afirmações de Bial e ‘Dourado’ foram feitas).

Por outro lado, cabe aqui lamentar profundamente a vitória de Marcelo ‘Dourado’ no BBB10, mesmo depois de diversos Paredões dos quais ele participou e, obviamente, da final. É absolutamente inacreditável que uma pessoa que personifique de forma tão gritante o preconceito (homofóbico e machista, como as afirmações dos itens ‘a’, ‘b’, ‘c’, ‘d’, ‘e’ e ‘f’ demonstram cabalmente) tenha recebido tanto apoio da população brasileira que assistiu ao BBB10, de sorte a premiar esta personificação do preconceito com a fortuna de R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais). Mas, ainda que não se considerasse ‘Dourado’ homofóbico (o que não se afigura correto pelo supra e infra exposto), sua torcida (“Máfia Dourada”) seguramente agiu dessa forma, tanto que Dicésar disse no programa “Mais Você” (da Rede Globo, apresentado por Ana Maria Braga) que recebeu milhares de ameaças desta torcida de ‘Dourado’ após sair do programa, razão pela qual ia deixar de expor suas opiniões sobre tal participante por se sentir ameaçado… Exemplo maior de desrespeito dessa “Máfia Dourada” dificilmente haverá… 

Algo que tem sido dito ao menos desde a eliminação de Angélica no Paredão contra ‘Dourado’ é o de que ele representa a reserva moral homofóbica (e, diria eu, também machista) da sociedade em geral, que (admita ou não) possui fortes preconceitos contra homossexuais e não se conforma com a presença de três homossexuais da vida real em um programa de horário nobre. Este reserva moral preconceituosa se manifestou quando Marcelo ‘Dourado’ foi (corretamente) acusado de homofóbico, pois os membros da chamada “Máfia Dourada” (sic), como se auto-intitulou a torcida deste cidadão, não vêem absolutamente nada demais nele afirmar que AIDS seria uma doença gay e que quebraria os dedos de Angélica e a deixaria inconsciente em um hospital (“se não fosse mulher”) pelo simples fato dela discordar de seu “Mestre” (sic), como esta torcida tem chamado este cidadão… Ora, se estas atitudes não configuram preconceito, dificilmente algo configurará… Logo, considerando que esta torcida se identifica com as absurdas atitudes e falas deste participante, fica claro que a imputação de reserva moral preconceituosa encontra-se correta e justa. Certamente o problema está na correta observação de Jean Wyllys, no artigo “As cores da casa” de seu blog (de 14/02/2010), quando afirmou que ‘Dourado’ tornou-se o porta-voz da ordem heterossexual que se sente incomodada com a presença dos coloridos e daqueles que com eles simpatizam, tornando-se o “herói” daquela esdrúxula masculinidade que se afirma em oposição à homossexualidade… Ou seja, acrescento eu, trata-se de puro preconceito heterossexista… (heterossexismo/heterossexista é a filosofia que prega a heterossexualidade como a única sexualidade aceitável) Algo comprovado cabalmente por Jean em outro artigo de seu blog, nominado “Autoridade dourada e fascista”, de 08/03/2010.

Anote-se, ainda, que esta tal “Máfia Dourada” (sic) é tão arrogante e ignorante que ameaçou jornalistas que se posicionaram contrariamente às posturas de seu “Mestre” Marcelo ‘Dourado’. Jean Wyllys, vencedor do BBB5 e que se posicionou contrariamente às posturas de ‘Dourado’, é um dos que sofreu ditas ameaças e denunciou isto em seu twitter. Isso comprova que a torcida deste cidadão é totalitária, no sentido de não admitir o direito de crítica às torcidas dos demais participantes… querem ter o direito de criticar os outros, mas não querem que os outros exercitem este direito… Exemplo típico de arrogância e desrespeito ao próximo…

Sobre o tema, cabe aqui criticar veementemente as palavras de Pedro Bial, pouco antes de anunciar a vitória de ‘Dourado’, no sentido de que ele não teria sido homofóbico no BBB10 (disse que, se ele é homofóbico, não o foi no BBB10), tendo repetido isto três vezes (talvez para tentar convencer pela repetição, tentando transformar uma mentira em verdade pela mera repetição…), pois pelo acima exposto isso se afigura completamente descabido. Ora, Marcelo ‘Dourado’ fala em “orgulho hétero” e em “resistência heterossexual”, afirma que a AIDS seria uma ‘doença gay’ (ao afirmar que homens héteros não se contaminam pelo vírus do HIV), se incomoda grosseiramente com uma conversa sobre casas noturnas voltadas ao público LGBT ao mesmo tempo em que admite conversas análogas sobre afetividades heteroafetivas sem o menor problema, manda o participante Drag Queen “virar homem” (sic) “apesar de ser viado” (sic), e, ainda assim, não é considerado por Pedro Bial (e, em suma, pela Rede Globo) como homofóbico??? Será que Bial e a Globo entendem que somente agressões e assassinatos configurariam homofobia??? Para eles, disseminar o preconceito, não aceitar conversas sobre homoafetividade quando se aceita conversas idênticas sobre heteroafetividade e, em suma, menosprezar não-heterossexuais não implicaria em homofobia??? Sinceramente, as palavras de Bial sobre a suposta não-homofobia de ‘Dourado’ soaram profundamente desrespeitosas da inteligência alheia e, portanto, merecem total repúdio.

Aliás, é curioso notar que tal manifestação de Pedro Bial veio logo após a determinação judicial do Juiz Federal Paulo Cezar Neves, da 03ª Vara Cível de São Paulo/SP, para que a emissora fizesse esclarecimentos sobre a forma de contaminação pelo vírus do HIV, em decorrência da supra explicitada manifestação inverídica e homofóbica de Marcelo ‘Dourado’ segundo a qual homens heterossexuais não seriam passíveis de contaminação por dito vírus. Em que pesem as colocações da emissora de que não seria responsável pelas manifestações dos participantes, esse argumento não prospera, pois a emissora tem lucros milionários em razão da exibição do Big Brother Brasil, donde é responsável pelos atos lesivos à ordem pública ocasionados durante sua programação – e, como bem destacado pelo Ministério Público e ratificado pelo Nobre Magistrado, trata-se de uma questão de saúde pública, na medida em que dita afirmação pode levar homens heterossexuais a se despreocuparem com a prática de sexo seguro (com preservativo) e, assim, aumentar-se a contaminação pelo vírus do HIV. Eis a questão de saúde pública.

Faz-se esse paralelo porque (talvez a principal) afirmação de ‘Dourado’ que o fez ser (corretamente) designado como homofóbico foi esta declaração acerca da contaminação pelo vírus do HIV. Então, o fato de a Rede Globo ter sido compelida judicialmente a esclarecer a população, durante a exibição do BBB10 (o que acabou sendo possível fazer apenas na final do programa, ante a decisão ter sido proferida dias antes), pode tê-la feito se posicionar no sentido da ausência de homofobia de ‘Dourado’, o que, como demonstrado, desafia a inteligência alheia. É uma suposição. De qualquer forma, é curioso que dois posicionamentos oficiais da Rede Globo tenham sido proferidos por meios distintos: os esclarecimentos acerca da contaminação pelo vírus da AIDS foram prestados por uma voz robótica na chamada para um intervalo, ao passo que a afirmação veemente da suposta não-homofobia de ‘Dourado’ se deu pela voz de Pedro Bial. Indago: por que a diferença? Não eram dois posicionamentos oficiais da Rede Globo, ainda que um deles por força de decisão judicial? Ainda que se considere que a decisão judicial retira o caráter de ‘posicionamento oficial’ da emissora, será que para a Globo uma decisão judicial seria menos importante que aquele outro ‘posicionamento da emissora’? São perguntas às quais aguardo uma resposta…

Em suma, a Rede Globo merece total repúdio tendo em vista que, apesar de tamanhas provas da homofobia de Marcelo ‘Dourado’, ter tomado o partido dele para inacreditavelmente afirmar que ele não teria sido homofóbico…

Cabe também criticar a Rede Globo de televisão por ter compactuado com a fraude às votações do BBB10… Ora, como ficou notório desde a eliminação da participante Angélica, a torcida “Máfia Dourada” passou a utilizar uma ferramenta chamada IMACRO para conseguir votar de maneira muito mais rápida pela internet. Explico: quando se vota para eliminar um participante pelo site da Rede Globo, é preciso escolher o participante que se quer eliminar, escrever uma palavra para, somente com a palavra escrita corretamente, poder ser computado o voto. Isso leva por volta de dez segundos por voto. Contudo, o IMACRO torna desnecessários os cliques, bastando digitar a palavra, donde a cada segundo consegue-se um voto.

Mesmo sabedora disso (pois é fato notório entre as torcidas do BBB10 e isso foi informado, inclusive por este blogueiro, ao Sr. Boninho via twitter), a Rede Globo quedou-se inerte, donde compactuou com esta fraude às votações que inequivocamente favoreceram ao participante Marcelo ‘Dourado’. Ora, era muito fácil acabar com essa fraude, mediante aceitação de votos apenas por ligações telefônicas (que têm um custo financeiro, o que evitaria milhares de votos pela mesma pessoa), inclusive com Pedro Bial explicando o motivo desta mudança ao vivo, em rede nacional, para que o público em geral e mesmo os participantes soubessem dessa mudança por conta da fraude cometida pela tal “Máfia Dourada”

Nem se diga que o IMACRO passou, com o tempo, a ser usado por todas as torcidas, na medida em que isto é irrelevante tanto por, de uma forma ou de outra, caracterizar uma fraude à metodologia de votação (especialmente considerando as pessoas que não souberam a tempo da existência desta ferramenta nas votações em que seus favoritos foram eliminados, notadamente no caso de Angélica, a primeira grande prejudicada pela mesma), assim como por ser uma ferramenta apta a beneficiar principalmente a torcida com o maior número de pessoas com muito tempo livre, ou seja, daqueles que podem ficar horas e mais horas apenas votando via internet, em contraposição às pessoas que precisam trabalhar, se dedicar aos estudos etc. Logo, é inegável que merece séria censura a Rede Globo por compactuar com dita fraude (no mínimo, por sua inércia em resolver o problema da forma apontada – limitando as votações ao telefone ou por outra forma que encontrasse para tanto), inclusive por aproveitar-se da audiência das torcidas prejudicadas pela ferramenta IMACRO ao mesmo tempo em que compactuava com a frustração arbitrária de ditas torcidas mediante a fraude das votações ensejadas pelo IMACRO. Ouvi dizer inclusive que havia a possibilidade de se deixar a máquina votando sozinha e que isso teria sido feito em prol de ‘Dourado’ em diversas lan houses. Não há provas disso (que eu saiba), mas só esta fundada suspeita deveria ter feito a Rede Globo suspender as votações virtuais…

Ou seja, o BBB10 acabou sendo a pior de todas as edições por conta desses nefastos acontecimentos… Se no BBB5, vencido por Jean, aqueles que se uniam em grupos eram eliminados programa a programa pela sorte de Jean e seus aliados contra aquele conluio, o que aconteceu também no BBB7, vencido por Diego ‘Alemão’ (embora neste caso, o lado que combinavam votos também obtinham a liderança, além da maioria de votos), neste BBB10 o lado nefasto da Força venceu, na medida em que aqueles que sempre fizeram conluios para se unir contra seus desafetos (‘Dourado’, Lia e Cadu, entre outros) acabaram recebendo apoio do público… Inclusive de forma hipócrita, pois tais participantes acusaram os outros de ‘combinarem votos’ mesmo quando eles também combinavam… ou será que é coincidência que seus votos sempre tenham se dirigido ao mesmo grupo de pessoas??? Quer dizer que eles podiam combinar votos, mas seus adversários não podiam??? Ou melhor, quando os outros faziam isso era errado, mas quando eles faziam não o era??? Ora, faça-me o favor… e, considerando que nefasto significa maléfico e considerando que é maléfico ficar compactuando para prejudicar os demais de forma hipócrita, a terminologia afigura-se justa.

Nem se fale (como inacreditavelmente tem sido apontado) que essa manifestação contrária a Marcelo ‘Dourado’ configuraria “heterofobia” (sic). É verdadeiramente inacreditável a moda de imputação de heterofobia a homossexuais que criticam atitudes preconceituosas de pessoas heterossexuais… É uma clara estratégia discursiva decorrente da imputação de homofobia a quem discrimina não-heterossexuais em geral… Contudo, o termo heterofobia é completamente descabido, pois ele supõe a existência de uma suposta discriminação contra heterossexuais por sua mera heterossexualidade, o que nunca aconteceu na história da humanidade, ao menos como fenômeno social. No caso aqui discutido, ninguém criticou ‘Dourado’ por sua heterossexualidade, mas por suas falas e atitudes tidas como homofóbicas. Dizer que isso configuraria “heterofobia” configura um absurdo inominável… O problema é que, como bem disse Jean Wyllys em seu blog, no citado artigo “As cores da casa”, a reserva moral homofóbica da sociedade não gostou de termos três homossexuais assumidos na casa, na medida em que considerou isso como suposto “proselitismo homossexual” da emissora… Mas ora, como bem disse Jean, ninguém ouve falar em “proselitismo heterossexual” em novelas em geral, e homossexuais que assistiram a todo este “proselitismo heterossexual” nem por isso deixaram de ser heterossexuais…

Como bem disse Maurício Stycer em seu blog no dia 28/03/2010, o discurso de Bial no dia da eliminação de Dicésar, relativamente a este e ‘Dourado’ (“Aqui fora vocês têm que arrumar um meio de conviver, compartilhar”, pois “Vocês sabem que a violência não é a solução”), ele evidentemente estava se dirigindo às torcidas dos participantes, visando evitar confrontos. Mas, na verdade, como não há no Brasil um movimento de homossexuais que revidam a agressões homofóbicas na mesma moeda, esse discurso deve ser interpretado no sentido de que a “Máfia Dourada” e homofóbicos em geral devem aprender a tolerar os não-heterossexuais sem ofensas, sem agressões, pois o pressuposto da vida em sociedade é a aceitação da diferença, da diversidade, do pluralismo (que inclusive é princípio constitucional)…

Alguém pode se indagar sobre o motivo de se ter usado aspas simples sempre que se fez referência ao sobrenome do participante Marcelo (‘Dourado’). Isso decorre do nome dourado trazer uma relação com o ouro (de cor dourada), ou seja, com algo valioso. Contudo, recuso-me a usar este nome com esta vinculação relativamente a uma pessoa que, conforme demonstrado, personifica claramente o preconceito e a ignorância, ao menos na opinião deste blogueiro. Por isto, refiro-me a seu sobrenome através das aspas simples ao tratar deste Sr. ‘Dourado’.

Por fim, anoto que aqui usei de meu direito de crítica respeitosa, oriundo do direito fundamental à liberdade de expressão. Cabe lembrar que quem ingressa em um programa como o Big Brother concorda (no mínimo de forma tácita/implícita, pela lógica) a se expor à crítica alheia, concorde ou não com esta crítica. Considerando que o preconceito é o juízo de valor arbitrário (não-comprovado por dados empírico-científicos), a homofobia o preconceito contra homossexuais (evidente na colocação da AIDS como doença gay) e que o machismo é o preconceito contra mulheres (evidente na afirmação de que quebraria os dedos da mulher que dele discordou e ainda a deixaria inconsciente em um hospital se esta discordância tivesse se dado fora do programa, tentando consertar depois com a expressão “se ela não fosse mulher”, que parece uma tentativa de se emendar o nefasto soneto), tem-se como plenamente justas ou, no mínimo, defensáveis e, portanto, válidas as críticas aqui apontadas.

Como jurista, não considero ilícita a concordância com a restrição de seus direitos fundamentais (como a imagem e a intimidade) de forma que não afronte seus núcleos essenciais. Ilícitos deve ser considerada a tal casa de vidro, por realmente transformar os participantes efetivamente em membros de um ‘zoológico humano’, algo atentatório à dignidade da pessoa humana (lembrando-se que, no BBB9, ficaram algumas pessoas em um quadrado de vidro no meio de um shopping center disputando a preferência do público para ingressar na casa) e o tal quarto branco (ensejador de verdadeira tortura psicológica contra os participantes, pois visa eliminar aqueles que não conseguem resistir a um cubículo claustrofóbico por conta do alto stress desta segregação, como provou o BBB9), mas não o Big Brother em geral (embora esta discussão transcenda os limites desta manifestação).

Logo, cabe lamentar a vitória de Marcelo ‘Dourado’ no BBB10, por representar a vitória da reserva moral preconceituosa do heterossexismo vigente em nossa sociedade… simplesmente lamentar…

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3 Responses to Se eu tivesse participado do BBB10. A Questão Marcelo ‘Dourado’. Críticas à Rede Globo. Carta-aberta à Rede Globo e ao Povo Brasileiro.

  1. WikiRafa disse:

    A 10ª Edição do Big Brother Brasil provou-nos, infelizmente, que as atitudes homofóbicas ainda são toleradas (e, pasmem, incentivadas) aqui no Brasil. Por conta disso, a estratégia de Marcelo Dourado de utilizar-se dos preconceitos arraigados da população para conquistar a simpatia do público e vencer acabou sendo bem-sucedida.

    Ainda tenho esperanças de que, algum dia, o cidadão brasileiro encarará a homofobia com a mesma repulsa que o racismo.

    O mais incrível é que tanto a Rede Globo, no caso desse reality show e de várias de suas novelas, quanto suas concorrentes que vendem horários para que pseudo-religiosos como o sr. Silas Malafaias destilem seu ódio aproveitam-se de concessões públicas para tal. Triste perceber que todo esse teatro conta, em pleno século XXI, com a conivência das autoridades públics.

  2. Lucas Carvalho de Oliveira disse:

    Paulo, antes de tudo, gostaria de parabenizá-lo pelo texto. Aproveito o ensejo para expressar minha concordância. Marcelo “Dourado” é homofóbico, o que foi cabalmente provado por você.

    Pois bem, gostaria, ademais, de apresentar alguns comentários pontuais.

    Você utilizou a expressão “gay travesti”. Compreendo que seria melhor não adjetivar um adjetivo. Contudo, de toda sorte, caso não veja assim, usaria a expressão “gay drag queen” ou “gay transformista”, já que travesti, pelo menos na esfera dos movimentos sociais, não seria meramente um transformista, mas alguém que transita entre a masculinidade e a feminilidade.

    Concernente à expressão “orgulho heterossexual”, concordo com você. É um absurdo falar em “orgulho heterossexual”. Entretanto, não vejo eficaz utilizar a expressão “orgulho de alguma coisa”, sendo que não se escolhe ser tal coisa. Assim, não tenho orgulho por ser homossexual, como não tenho orgulho por ser homem, como não tenho orgulho por ser bonito (rsss). Nesse sentido, não concordo com as expressões “orgulho homossexual” e, o que é muito pior, “orgulho heterossexual” (pelos motivos elencados por vc).

    “Resistência heterossexual”? Uma das maiores bobagens que já ouvi. Seu comentário é ótimo!

    Em relação aos termos usados pelos participantes, como “opção sexual” ou “homossexualismo”, acho realmente muito chato corrigir as pessoas sobre seus verdadeiros significados. Falo isso pq a linguagem é dinâmica. Mudam-se conceitos, mantendo-se expressões. Vejo muitas pessoas falarem que não escolheram ter a opção sexual “x”, o que é uma contradição em termos, mas em termos formais. Materialmente, grande parte da população utiliza “opção sexual” com o conceito de “orientação sexual”. Obviamente que cabe informar que a sexualidade não é uma escolha, mas uma orientação. Mas ficar corrigindo as pessoas é mto chato…

    O mesmo aplico à palavra “homossexualismo”. Em relação à terminologia utilizada pelo movimento LGBT, evitam-se as expressões “homossexualismo”, “lesbianismo”, “travestismo” e “transexualismo”, já que na linguagem médica o sufixo “ismo” reporta-se ao universo das patologias, preferindo-se, ao invés, utilizar “homossexualidade”, “lesbianidade”, “travestilidade” e “transexualidade”. Mas qual homem médio sabe disso? Poucos, pouquíssimos. É uma luta pela linguagem que não traz resultado efetivo na garantia de direitos…

    Pertinente às siglas, só gostaria de acrescentar que foi importante o surgimento de um mercado GLS de bens e serviços, originalmente bares, boates, saunas; e, depois, sites, festivais de cinema, revistas especializadas, editoras, hotéis, empresas de turismo, grifes de moda etc. Vejo que o mercado constitui, assim, novos espaços de sociabilidade, inscrevendo–se, com alguma freqüência, nos marcos de um compromisso com a formação de uma “identidade positiva” e a melhoria da “auto–estima”. Ademais, a construção da identidade do homossexual e sua visibilidade foram as bases pelas quais os homossexuais ingressaram na arena política. E a constituição dessa identidade é, ao mesmo tempo, uma busca pela afirmação de sua igualdade formal na esfera pública. O mercado GLS teve (e tem!) papel importante nessa construção.

    Por fim, fica patente a reserva moral homofóbica de grande parte da população brasileira. O patriarcado e o heterossexismo impõem sua dominação, utilizando argumentos pseudocientíficos como fundamento, pela naturalização da submissão e opressão. É aqui que devemos lutar. Devemos combater essa reserva moral homofóbica.

  3. Paulo Iotti disse:

    Lucas, primeiramente, obrigado.

    Quanto a “gay travesti”, parece que você adota a diferenciação entre os termos “gay” e “homossexual”, atribuindo àquele um estilo de vida (pelo significado literal, “alegre”, da palavra) e a este a atração erótico-afetiva por pessoas do mesmo sexo. Contudo, eu não adoto essa diferenciação, que acho inócua e contraproducente, pois complica aquilo que não precisava ser complicado, servindo apenas para complicar ainda mais o entendimento de heterossexuais sobre as terminologias. A sopa de letrinhas é útil para fins identitários, evidentemente, mas não vejo utilidade em letras desnecessárias.

    Assim, como drag queens são espécies do gênero travesti, creio que não seja “errada” a minha expressão – mas, como sei da importância das questões identitárias, comprometo-me a pensar no assunto. 🙂

    Sobre a chatice (!) das correções, entendo o que você fala, mas discordo. Se com “homossexualismo” o que você falou fica mais defensável pela teoria linguística, não dá pra dizer isso quanto à “opção sexual” (sic), pois é impossível que o termo “opção” venha a ser ressignificado para algo que não dependa de opção! Aí é uma briga minha com a teoria linguística: admito variações de conteúdo das palavras desde que não afronte o significado essencial da palavra – não dá pra fazer que “verde” signifique “vermelho”, ao menos sem que a recíproca se torne igualmente inequívoca. Enfim…

    Abraço!

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